Sempre achei o trabalho da recepção do prédio 40 uma monotonia. Está sempre lá o telefone, a recepcionista e algumas pessoas passando por ela como se fosse de vidro. Como sou muito otimista, pensei que ao observar uma rotina tão previsível e chata, poderia perceber, se ficasse bem atenta, algum fato interessante e quem sabe surpreendente.
Acontece que, apesar de ser uma sexta-feira chuvosa, pós-feriado, há um grande evento acontecendo no prédio 40. E, como é de se esperar, o evento transformou a rotina da recepcionista.
Pra começar, encontrei duas sorridentes recepcionistas e não uma solitária como habitualmente. Muitas pessoas passando. De todos os tipos: vi um executivo com sua indefectível pastinha executiva, senhoras de alegres bochechas e muitas crianças indígenas. Um misturado de “tribos”.
De repente ouvi uma música sertaneja cantada à capela por dois rapazes até bem afinadinhos. Não acredito, é uma tentativa de conquistar a atenção das recepcionistas. E parece que funcionou: entre um sorriso e uma informação prestada houve trocas de bilhetinhos. Provavelmente números de telefones.
O mais curioso é a reação das pessoas diante de alguém simplesmente parado olhando ao seu redor. Em aproximadamente meia hora, quatro conhecidos me perguntaram o que estava fazendo ali parada. “Estás matando a aula?” “Ué! O que fazes aí parada, não tem nada pra fazer?”
Percebi que as pessoas não costumam dar-se um tempo. O fato de estar sentada em local de movimento sem fazer nada aparente, incomoda as pessoas. Como não estás aproveitando o tempo livre com algo útil? Às vezes é inútil... Os que não me perguntaram nada me olharam com aquela pergunta muda estampada na face.
Mas eu estava fazendo. É verdade que não era algo à que estou habituada. Admirar o movimento é bastante inusitado. Captei alguns detalhes que nunca haviam me despertado o interesse.
Enquanto a animação na recepção crescia e a chuva lá fora engrossava os pingos, percebi algo escuro e estranho no chão muito claro, rolando ao sabor dos passos apressados. Minha atenção se fixou naquilo. Por um momento esqueci as recepcionistas, os cantadores de sertanejo e a chuva grossa. Parece uma aranha cheia de pernas. Mas uma aranha caminha, dificilmente rola daquele jeito pelo chão. De repente, avistei uma funcionária da limpeza e por associação identifiquei o objeto do meu interesse: é um emaranhado de cabelos escuros que ao se libertar da vassoura aproveitou para dançar entre os pés dos que passavam.
Será que mais alguém notou? Ou ninguém olha para o chão?
Os pingos da chuva ficaram mais finos, os rapazes deixaram as recepcionistas trabalharem. O movimento diminuiu, deve ter iniciado alguma das programações do evento. Vou aproveitar pra voltar pra Famecos. Os cabelos no chão já ganharam à rua.
3 comentários:
Sempre se tem algo a observar,mas ninguém faz, ninguém para, realmente ninguém se conhece ou dá tempo pra si, e quando se dá costumam-se realmente ouvir coisas como "tá matando aula" "q tá fazendo ai" "vagabundo" hahaha, alguem q para para observar, meditar, é considerada estraterrestre... o normal é o mundo apressado, "o to atrasado para.." ! A verdade é q esses sao ótimos momentos e que agnt nunca esquece.. e nos quais realmente se faz alguma coisa...
Adorei o texto!
Observar não é uma tardefa muito fácil, Pati!
Pelo menos não para mim
(heheh)
Gostei do teu texto...
correçao, vc nao estava observando, nem matando aula, estava aprendendo como a vida funciona, outro dia vi na TV uma reportagem que falava sobre os garis, e como e possivel algum ficar invisivel so porque colocou aquela roupa... ja parou para pensar...ciao...prego
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